terça-feira, 16 de março de 2010

Quando eu morrer...

 o fio de prata de um colar de pérolas vai se arrebentar, e todas as pérolas acetinadas e lisinhas, vão rolar pela terra e correr de volta para a casa delas, suas mães, para ostras lá no fundo do mar. Quem vai mergulhar e apanhar minhas pérolas depois que eu tiver ido embora? Quem vai saber que elas eram minhas? quem vai adivinhar que antigamente, há muito tempo, o mundo inteiro pendia em torno do meu pescoço? "

(Jostein Garder - Livro: Através do Espelho - pag: 84)

segunda-feira, 15 de março de 2010

NÃO SOU NADA (Álvaro de Campos)


Não sou nada.


Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

...

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, ...
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
...
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho genios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.


Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…

Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.

Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

...

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, para o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

...

Vivi, estudei, amei e até cri,
...

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.

Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência

...
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
...

...

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
...
(Álvaro de Campos)

sábado, 13 de março de 2010

COISAS DE MULHER

Ela passou o primeiro dia empacotando seus pertences em caixas, engradados e malas.
No segundo dia, chamou os homens da transportadora para levarem a mudança.
No terceiro dia, se sentou pela última vez na bela sala de jantar, e à luz de velas pôs música suave e se deliciou com alguns camarões, um pote de caviar e um garrafa de Chardonnay.
Quando terminou, foi a cada aposento e colocou pedaços de casca de camarão, besuntados em caviar, nas cavidades dos varões das cortinas.
Depois limpou a cozinha e se foi.

Quando o marido chegou com a nova namorada, tudo estava limpo e arrumado.

Depois, pouco a pouco, a casa começou a feder.
Eles tentaram de tudo: limpando, lavando e arejando a casa.
Todas as aberturas de ventilação foram verificadas à procura de algum animal morto e limparam os tapetes a vapor.
Desodorantes de ar e ambiente foram pendurados em todos os lugares.
A empresa de combate a insetos foi chamada para colocar gás em todos os encanamentos.
Repetiram a operação durante alguns dias e o marido e a namorada tiverem de sair da casa, e ainda tiveram de pagar para substituir o caríssimo carpete de lã.

Nada funcionou.

Os amigos pararam de visitá-los.
Os funcionários das empresas de consertos se recusavam a trabalhar na casa..
A empregada se demitiu..
Finalmente, eles não suportavam e decidiram se mudar.
Um mês depois, apesar de terem reduzido o valor da casa em 50%, eles não conseguiram um comprador para a casa fedorenta.
A notícia se espalhava e os corretores de imóveis não retornavam as ligações.
Finalmente, eles tiveram de fazer um empréstimo do banco para comprar uma casa nova.

A ex-esposa ligou para o marido e perguntou como andavam as coisas.
Ele relatou o martírio da casa podre.
Ela escutou pacientemente e disse que sentia muitas saudades da casa e que estaria disposta a reduzir a parte que lhe caberia na separação dos bens em troca pela casa.

Sabendo que a ex-mulher não tinha idéia de como estava o fedor, ele concordou com um preço que era 1/10 do que valeria a casa. Mas só, se ela assinasse os papéis naquele dia mesmo.
Ela concordou e, em menos de uma hora, os advogados se encontram para a assinatura da documentação.

Uma semana depois, o homem e sua namorada assistiam, com um sorriso malicioso, os homens da mudança empacotando tudo para levar para a sua nova casa...

... incluindo...

... os varões das cortinas...

sexta-feira, 12 de março de 2010

Algumas mudanças - VI

Antes era: bloco de apartamento

Agora é: condomínio



Antes era: bar No fim do expediente 
Agora é: happy hour

Antes era: costureira 
Agora é: estilista

Antes era: negro 
Agora é: afro-descendente

Antes era: professora 
Agora é: tia, prof

Antes era: aquele senhor
Agora é: aquele tiozinho


Antes era: Bela bunda! 
Agora é: que popozão!

Antes era: Amorrrrrrr! 
Agora é: Nenhhêêêêê!

Antes era: desculpe, mas não posso!!
Agora é: nem fudendo!

Antes era: olha o barulho! 
Agora é: ÔÔ óía auê aí, ó!

Antes era: Está acontecendo um problema
Agora é: Tá rolando um pro, meu!

quinta-feira, 11 de março de 2010

O MOTEL (por Luís Fernando Veríssimo)

Isto é o que podemos chamar de "separação e agressão por convenção". kk kkkk


Mirtes não se agüentou e contou para a Lurdes:
- Viram teu marido entrando num motel.
Lurdes abriu a boca e arregalou os olhos..
Ficou assim, uma estátua de espanto, durante um minuto, um minuto e meio.
Depois pediu detalhes.
- Quando? Onde? Com quem?
- Ontem. No Discretíssimu's.
- Com quem? Com quem?
- Isso eu não sei.
- Mas como? Era alta? Magra? Loira? Puxava de uma perna?
- Não sei, Lu.
- Carlos Alberto me paga. Ah, me paga.

Quando o Carlos Alberto chegou em casa Lurdes anunciou que iria deixá-lo e contou por quê.
- Mas que história é essa, Lurdes? Você sabe quem era a mulher que estava comigo no motel. Era você!
- Pois é. Maldita hora em que eu aceitei ir. Discretíssimu's! Toda a cidade ficou sabendo. Ainda bem que não me identificaram.
- Pois então?
- Pois então, que eu tenho que deixar você. Não vê?  É o que todas as minhas amigas esperam que eu faça. Não sou mulher de ser enganada pelo marido e não reagir.
- Mas você não foi enganada. Quem estava comigo era você!
- Mas elas não sabem disso!
- Eu não acredito, Lurdes! Você vai desmanchar nosso casamento por isso? Por uma convenção?
- Vou!

Mais tarde, quando a Lurdes estava saindo de casa, com as malas, o Carlos Alberto a interceptou.
Estava sombrio:
- Acabo de receber um telefonema - disse..
- Era o Dico.
- O que ele queria?
- Fez mil rodeios, mas acabou me contando. Disse que, como meu amigo, tinha que contar.
- O quê?
- Você foi vista saindo do motel Discretíssimu's ontem, com um homem.
- Mas, o homem era você!
- Eu sei, mas eu não fui identificado.
- Você não disse que era você?
- O que? Para que os meus amigos pensem, que eu vou a motel com a minha própria mulher?
- E então?
- Desculpe, Lurdes, mas...
- Mas o quê?


- Vou ter que te dar uma surra...

                                    (Luiz Fernando Veríssimo)

                                   MORAL DA HISTÓRIA:

                                  "DEVEMOS CUIDAR APENAS DA NOSSA SAÚDE,
                                   POIS DA NOSSA VIDA, TODO MUNDO CUIDA..."